terça-feira, 22 de novembro de 2016

"Professores a tempo parcial nas universidades já são quase um terço"

«Número de docentes com este tipo de contrato aumentou 15% em cinco anos e a austeridade é uma das causas. Instituições dizem que a prática pode ter vantagens, mas sindicato discorda.

O número de professores com contrato a tempo parcial nas universidades públicas aumentou 15% nos últimos cinco anos. Estes docentes representam hoje quase um terço de todos os que dão aulas. Os cortes no financiamento e as regras de contratação na função pública que vigoraram nos últimos anos fizeram com que aumentasse este tipo de vínculos no sector, sobretudo através do recurso a professores convidados. O Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup) entende que esta realidade corresponde a uma “degradação” da qualidade dos vínculos laborais, mas os responsáveis das instituições dizem que até pode haver vantagens para o ensino.

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Os números são da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) e dizem respeito ao período entre 2010 a 2014. Nesses cinco anos, o número de professores contratados a tempo parcial nas universidades públicas passou de 3944 para 4546, um crescimento de 15,3%. Em consequência, este tipo de vínculos passou a ter um peso mais determinante na composição dos corpos docentes das instituições. O número de contratos a tempo parcial representava 26,8% do total em 2010. Cinco anos depois já valia 31,2%.

Para Paulo Peixoto, investigador do Observatório das Políticas de Educação, na Universidade de Coimbra, estes números são a “tradução da precarização da profissão docente no ensino superior”. “Há uma degradação dos vínculos laborais no sector”, concorda o presidente do Snesup, Gonçalo Velho.

Nos politécnicos já são mais de 36%


Os professores a tempo parcial são contratados por uma percentagem de horas de aulas face ao tempo habitual de um professor com vínculo permanente – e que costuma ser de seis a nove horas semanais. Legalmente, nunca pode ter mais de 60% do tempo lectivo. Paulo Peixoto diz, porém, “que há instituições que estão a contratar professores a tempo parcial, mas que depois os colocam a trabalhar a tempo integral”.

Nos politécnicos o cenário não é muito distinto do que se encontra nas universidades públicas. Ainda que o número total de professores a tempo parcial tenha diminuído nestes cinco anos (menos 3,3%), essa variação acompanhou apenas a redução global do número de professores, independentemente do seu vínculo. Quando se observa a percentagem face ao total de docentes, verifica-se um aumento, em cinco anos, de 2 pontos percentuais dos contratados a tempo parcial, fixando-se em 36,6% em 2014.

O presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), Joaquim Mourato elenca um conjunto de factos que se foram sucedendo na última década e que forçaram as instituições a recorrer a este expediente. A partir de 2007, a oferta passa a ser maior do que a procura de novos alunos, seguindo-se a crise financeira, a redução das transferências do Orçamento de Estado para o sector e as novas regras de controlo de despesa da administração pública que dificultaram a abertura de concursos e a contratação de novos professores. “Ficámos muito presos ao que já tínhamos dentro de casa”, ilustra Joaquim Mourato. “Não tem reflexo negativo na qualidade do ensino”. »

(reprodução de artigo Público online, de 22 de novembro de 2016)



[cortesia de Nuno Soares da Silva]

"Politécnicos querem ser universidades de ciências aplicadas e criar doutores"

«Conselhos gerais discutem hoje contributo dos politécnicos para o desenvolvimento do país. Marcelo abre a sessão
Os conselhos gerais dos politécnicos querem que estas instituições possam dar grau de doutoramento e que sejam designadas de universidades de ciências aplicadas. A posição conjunta tomada por este órgão vai ser um dos temas do seminário marcado para hoje para assinalar os 40 anos da Constituição, cuja abertura está a cargo do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
No encontro vai ser debatido o contributo dos politécnicos para o desenvolvimento do país. Contributo esse que os presidentes dos conselhos gerais - que não têm poder executivo mas trabalham na orientação estratégica das instituições - consideram ser já mais do que suficiente para que possam conferir grau de doutor aos seus estudantes.
"Os conselhos gerais pretendem, acima de tudo, pôr a discussão na ordem do dia, questionar e debater qual a melhor solução para o país", adiantou ao DN Pedro Lourtie, presidente do conselho geral do Politécnico de Leiria. Segundo o também representante dos presidentes dos conselhos gerais dos politécnicos a diferenciação dos sistemas de ensino superior em Portugal faz-se, neste momento, "essencialmente pela possibilidade legal de concessão de doutoramentos e pelo acesso a determinados financiamentos, além da questão da designação, que internacionalmente não é entendida, e penaliza os politécnicos portugueses".
Ou seja, os politécnicos querem ter a designação internacional igual às das instituições europeias semelhantes: university of applied sciences (universidades de ciências aplicadas). "É importante para a internacionalização, para captar alunos internacionais e para a realização de parcerias entre instituições. Nos países com sistemas binários é assim que são designados e isso ajudava a clarificar", acrescentou Pedro Lourtie. A designação de universidade de ciências aplicadas é a designação usada pela Associação Europeia de Instituições de Ensino Superior e em países como a Alemanha ou a Suécia.
A questão dos doutoramentos é também "uma evolução natural que está a acontecer na Europa. Recentemente foi a Alemanha que evoluiu nesse sentido". Pedro Lourtie acredita que esta é uma penalização para os politécnicos, que deviam ter autorização para conceder grau de doutor, mediante a avaliação da agência de acreditação do ensino superior (A3ES). "O Politécnico de Leiria tem neste momento 84 pessoas a fazer doutoramento nas suas instalações, que depois é conferido por outras universidades portuguesas ou estrangeiras", o que segundo o professor mostra como as instituições politécnicas já estão preparadas para este passo.
E o facto de algumas instituições quererem focar-se nos cursos curtos e outras quererem conferir doutoramentos não é um problema, defende o representante dos conselhos gerais.
"Há politécnicos que têm uma grande prática dos cursos curtos, e outros que têm também uma grande capacidade de doutoramentos, Além disso, a Universidade de Aveiro é uma das instituições que mais cursos curtos [formações que não conferem grau superior] ofereceu, o que mostra que as duas coisas não são incompatíveis."
Os conselhos gerais divulgaram uma tomada de posição há um mês em que defendiam estas duas alterações ao subsistema politécnico. Vão agora aproveitar a conferência de hoje para voltar ao tema, uma vez que o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, começou por se mostrar recetivo a fazer esta discussão, mas posteriormente no Parlamento referiu que não o ia fazer nesta legislatura. "Para nós há razões para se fazer esta discussão, faz sentido e é possível fazer estas alterações", sublinha Pedro Lourtie.
Além destas duas reivindicações, alguns dos politécnicos mantêm a intenção de se tornarem universidades. "O Politécnico de Leiria tem essa passagem no plano estratégico. No entanto, a lei só prevê a passagem de universidades a politécnicos."»

(reprodução de notícia DIÁRIO  DONOTÍCIAS online, de 22 de novembro de 2016)


[cortesia de Nuno Soares da Silva]

domingo, 20 de novembro de 2016

"Simpósio da Comissão de Ética para a Investigação Clínica de 2016"

«Num momento em que se abrem novas fronteiras nas aplicações do conhecimento à medicina, e em que a literacia científica da sociedade civil continua a ser reduzida, o papel social dos ensaios clínicos e a responsabilidade dos centros, onde estes ensaios e estudos clínicos se realizam, é cada vez mais relevante.
São estes os temas principais do Simpósio da Comissão de Ética para a Investigação Clínica de 2016, que se realizará no próximo dia 22 de novembro, no Auditório Tomé Pires – Parque da Saúde, em Lisboa.
Juntando alguns dos atores mais prestigiados nestas áreas do conhecimento, queremos dar a conhecer o diálogo que temos desenvolvido e que tem permitido desenvolvimentos muito significativos neste contexto.
As inscrições são gratuitas, mas limitadas à capacidade do Auditório. 





(cortesia de Nuno Soares da Silva)

sábado, 19 de novembro de 2016

"O passado e a história de uma empresa é um dos seus recursos"

Visita na cidade da balança 

(título de mensagem, datada de novembro de 2016, disponível em Empreender)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"Universidade dos Açores com milhares de documentos antigos por digitalizar"

«A Universidade dos Açores tem milhares de documentos antigos por digitalizar para integrarem o repositório da instituição, criado em 2008 e que tem quase quatro mil publicações científicas, foi hoje anunciado.

“Estão por digitalizar milhares de documentos, alguns desde o início da universidade”, que assinala este ano 40 anos, e “nem todos estão reunidos na biblioteca”, afirmou, em declarações à agência Lusa, o coordenador de área da Biblioteca da Universidade dos Açores, Fernando Ribeiro.
Explicando que a questão da digitalização de documentos hoje em dia não se coloca, pois todos eles já se encontram em formato digital, Fernando Ribeiro salientou que a digitalização de documentos antigos “tem uma importância fundamental para o presente e para o futuro”.
“É obrigatório colocar as teses e dissertações nos repositórios das universidades onde são feitas”, referiu o responsável, esclarecendo que a introdução no repositório da academia de documentos antigos está a ser feita por estagiários, mas este é um “trabalho moroso”.
O repositório institucional da Universidade dos Açores, com 3.896 documentos de várias tipologias, tem por missão incorporar, registar, organizar e manter o acesso livre e ‘online’ da produção académica, científica e cultural produzida na academia, como teses de doutoramento, mestrado, dissertações, artigos científicos ou conferências.
Além da concentração dos documentos, Fernando Ribeiro, que na sexta-feira é um dos oradores do XV Encontro Regional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, destacou que o repositório permite a preservação dos mesmos e dá visibilidade às instituições de ensino superior, assim como possibilita a outros investigadores das mesmas áreas saberem o que está feito.
O responsável adiantou que a Universidade do Minho é a pioneira na criação dos repositórios, ferramenta que “arrancou em força em 2003/2004”, e caso já existisse na Universidade dos Açores em 1989, ano em que ocorreu um incêndio que destruiu o edifício da reitoria, teria sido possível “salvar muita documentação”.
O repositório da Universidade dos Açores, academia com polos em São Miguel, Terceira e Faial, integra o portal do Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RECAAP), que reúne várias universidades nacionais.
O ano passado, o repositório da instituição açoriana registou quase 61 mil consultas e 169 mil ‘downloads’. Em 2014, houve 276 mil consultas e 424 mil ‘downloads’.
A Universidade do Porto tem 40 mil documentos no seu repositório, enquanto a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro tem 1.300 documentos.
O XV Encontro Regional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas realiza-se na sexta-feira, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e tem como tema os acervos digitais.»

(reprodução de notícia AÇOREANO ORIENTAL online, de 15 de Nov de 2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"Centro europeu de medicina regenerativa nasce na Universidade do Minho e atrai investimento de €100 milhões"

«Comissão Europeia financia novo centro com 15 milhões de euros e nos próximos sete anos investimento vai atingir 100 milhões de euros. "The Discoveries Centre" resulta de uma parceria entre cinco universidades portuguesas (Minho, Porto, Aveiro, Lisboa e Nova de Lisboa) e a University College London (Reino Unido), líder mundial em Ciências e Tecnologias da Saúde

Chama-se "The Discoveries Centre", é um novo centro de investigação europeu de excelência na área da medicina regenerativa e de precisão com sede em Portugal e a coordenação da Universidade do Minho, e acaba de ser aprovado pela Comissão Europeia (CE).
O projeto vai ter um financiamento direto da CE de 15 milhões de euros e o apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Norte, Centro e Lisboa e Vale do Tejo, prevendo-se que o investimento total na sua instalação atinja cerca de 100 milhões de euros nos próximos sete anos, a que se irão somar verbas próprias conseguidas em concursos e contratos pelos investigadores que vão trabalhar no novo centro.
O objetivo do "The Discoveries Centre" é focar-se na investigação multidisciplinar, com base em métodos inovadores a serem aplicados na prevenção e no tratamento de doenças músculo-esqueléticas, neurodegenerativas e cardiovasculares. Resulta de uma parceria entre cinco universidades portuguesas (Minho, Porto, Aveiro, Lisboa e Nova de Lisboa) e a University College London (Reino Unido), considerada uma das melhores universidades da Europa e líder mundial em Ciências e Tecnologias da Saúde.
[...]»

(reprodução parcial de notícia EXPRESSO online, de 14.11.2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

"Universidades e politécnicos têm oportunidade única de abrir quadros"

«O Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Manuel Heitor defende, em entrevista, que 2017 será o ano da retoma
O Sindicato do Ensino Superior (SNESUP), depois de olhar para a proposta de Orçamento, questionou a viabilidade da promessa de criar 2000 novos contratos para doutorados até 2019. Mantém os números?
Claro que reafirmo todos os números mas temos de ter bom-senso e de ser realistas. O emprego científico é porventura um dos maiores desafios, certamente de Portugal, mas de toda a comunidade científica na Europa. O que estamos a fazer, e era um compromisso do governo, é resolver um problema de precariedade a nível pós-doutoral, associado ao abuso da figura do bolseiro de post-doc para funções normais de investigação. É esse o assunto que estamos a tratar.
O que está a oferecer não é a solução mas só uma saída para doutorados?
É uma saída, entre outras. Em 2005, formávamos cerca de 700 novos doutores por ano. Hoje formamos 3000. Eles vão para o emprego normal e também há aqueles que escolhem a vida científica. Obviamente que este processo de crescente precariedade foi desenvolvido nos últimos anos porque também foram bloqueadas e proibidas todas as contratações dentro das instituições de ensino superior, entre 2012 e 2015.
O que diz o SNESUP é que estes contratos também não trazem estabilidade...
O meu argumento para os sindicatos é que o regime que foi instaurado não pode ser visto como isolado da possibilidade que hoje está consagrada de as instituições do ensino superior reforçarem os seus quadros. É neste processo de evolução que nós estamos a tentar reforçar e rejuvenescer as instituições, e dando sobretudo condições dignas ao trabalho científico.
Mas o que estes lhe respondem é que, olhando para os números do orçamento, e tendo em conta que será preciso repor valores de vencimentos cortados, não veem essa margem para as instituições contratarem...
Não me digam que os sindicatos queriam que se voltasse à situação de 2015, de nem ser possível contratar. O Orçamento do Ensino Superior cresce 70 milhões de euros. Há um aumento efetivo. É verdade, concretizámos o compromisso da reposição, e estamos a aumentar efetivamente o orçamento. Mas, mais do que isso, o contrato que fizemos com os politécnicos e com as universidades assume o compromisso de a reposição salarial ser feita aos valores de 2013. E, como efetivamente a massa salarial diminuiu até 2015, há naturalmente uma folga. Mesmo em 2016, a massa salarial, pelo menos no primeiro semestre, diminuiu e tem vindo a diminuir desde 2011.
"O orçamento do ensino superior cresce 70 milhões de euros. Há um aumento efetivo (...) E a massa salarial tem vindo a diminuir. Há naturalmente uma folga"
Diminuiu essencialmente por via das aposentações?
Por saída de pessoas. Entre 2011 e 2015 saíram mais de mil docentes do ensino superior, devido ao processo de abandono e de emigração forçada, por saídas normais, etc. Se a massa salarial se tivesse mantido, isso [o argumento de que não há margem] era verdade. Como a massa salarial diminuiu desde 2011 até ao primeiro semestre de 2016, estamos efetivamente a repor aos níveis de 2013. Portanto há uma folga. E tanto há que há instituições, a Universidade de Lisboa entre outras, que já estão a abrir concursos. Temos estimulado quer os politécnicos quer as universidades a abrirem concursos e a aproveitarem esta oportunidade única para abrirem os quadros de pessoal. Portanto, repito, há um aumento efetivo face àquilo que é naturalmente também o constrangimento imposto a Portugal.

As instituições, nomeadamente as universidades, muitas vezes mais do que das verbas das dotações queixam-se das cativações. De não poderem usar até receitas próprias ....
Esse assunto está resolvido.
Existe um compromisso, nomeadamente no atual Orçamento do Estado. Mas pode garantir que estas cativações não irão surgir, por exemplo se vierem a ser exigidas mais medidas de austeridade?
Todos nós, em democracia, temos de apresentar todos os anos um orçamento. Felizmente, em Portugal, assinámos um contrato para toda a legislatura onde garantimos que não há cativações. E todos os anos os portugueses vão ter oportunidade de dizer se consagramos ou não o que está nos contratos. O que hoje podemos dizer é que o orçamento para 2017 consagra integralmente o que nós contratualizámos com as universidades e com os politécnicos, de não haver cativações e espero que este processo assim permaneça.
As bolsas de mérito para estudantes do ensino superior já não são pagas há vários anos. Prometeu desbloquear a questão. Está para breve?
Hoje [quarta-feira] já autorizei o primeiro pagamento. O nosso compromisso é, até ao fim da legislatura, pagar todos os atrasos e hoje já autorizámos a primeira tranche para pagar, ainda em 2016, a primeira fase. Iremos libertando os pagamentos. Isto conseguiu-se devido a uma monitorização que fizemos muito minuciosa da execução de 2016, porque criámos um grupo de monitorização, que possibilitou trabalhar com as instituições e libertar verbas. Por isso estamos a pagar já a primeira tranche em atraso. De facto herdámos muitos anos em atraso. Quando chegámos ao Ministério detetei que havia, desde 2012, atrasos...
"Havia cerca de oito milhões de euros [de bolsas de mérito do superior"
Qual era o valor total em dívida?

Cerca de oito milhões de euros em dívida e vamos já pagar em 2016 cerca de dois milhões de euros. Eu comprometo-me, na medida do possível, a fazer todos os esforços para que todos os atrasos sejam desfeitos no prazo da legislatura. Não é nada que possamos fazer de um dia para o outro mas vamos já pagar no próximo mês o primeiro ano em atraso.
O presidente da Secção Regional Centro da Ordem dos Médicos responsabilizou-o pela emigração de profissionais do setor, falando em falta de planeamento e alunos a mais. Admite baixar o numerus clausus, de Medicina ou qualquer outra área?
Não contem comigo para diminuir os numerus clausus. O que Portugal tem é poucos estudantes, não são - como já disse - instituições a mais. Ainda temos só cerca de 39% dos jovens com vinte anos no ensino superior. E hoje chegamos a vários hospitais que têm obviamente défice. Penso que temos que garantir o aumento da qualificação da população portuguesa e, na área da Medicina em particular, também a qualidade e a proximidade com a atividade clínica. Estamos a trabalhar de muito perto com o Ministério da Saúde, no estímulo e no reforço dos chamados centros académicos clínicos, também reforçando não só a formação médica mas também dos técnicos de saúde e os enfermeiros para melhor podermos reforçar a qualidade do ensino.
"Vamos aumentar a participação na Agência Espacial Europeia"
Já admitiu que o aumento do orçamento não é o que desejaria, nomeadamente no setor da Investigação e desenvolvimento (I&D). Onde gostaria de poder fazer mais?
Desde pelo menos 2007/2008 que não havia um aumento tão grande, que assenta nomeadamente no facto de o orçamento concretizar a promessa do governo de reposição salarial. Que sabemos que se concretiza também num aumento da despesa em investigação porque os salários são a questão crítica. O orçamento tem um aumento. Quando já nós tínhamos chegado a 1,6% do PIB, e depois de um sistema de contração, sabemos que este orçamento é a retoma. E penso que a minha principal função será acelerar essa retoma. Vai demorar algum tempo. Onde é que poderemos fazer mais? Certamente acelerando o estímulo ao emprego científico e acelerando aquilo que é a relação entre a ciência e a sociedade.
A propósito dessa relação com a sociedade, como será gerido o orçamento participativo em ciência?
É um processo inédito em Portugal, que passa por pedir à sociedade civil que participe na definição dos programas de investigação. O Ciência Viva, entre outros, foi um processo de estimular a promoção da divulgação da ciência, pedindo aos investigadores que venham dizer à sociedade o que estão a fazer. Esse foi um momento importante e tivemos 20 anos de Ciência Viva. Agora penso que, à semelhança do que está a acontecer noutros pontos do mundo, nomeadamente na Holanda e também na Califórnia, nos Estados Unidos, é que para além de se pedir aos investigadores que comuniquem o que fazem, é pedir às pessoas que participem na primeira fase de definição dos problemas. Quem faz ciência são os cientistas. O que se pede é que as pessoas participem na definição dos problemas que os cientistas abordam.
Serão três milhões de euros do orçamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) para isso?
O meu compromisso foi chegar ao fim da legislatura com 1% do orçamento da FCT, e 1% neste momento são quatro milhões. Esperemos que no fim da legislatura seja mais. Mas é muito dinheiro. O resto é feito da forma normal: um bolseiro que seja candidato é ele que diz, com o seu orientador, o que vai fazer. E mesmo neste caso tem de haver um entendimento.
Nas rubricas do orçamento do ministério para as Instituições I&D e cooperação internacional vemos uma diminuição. Como se explicam essas reduções?
O orçamento mostra uma reorientação de reforçar os recursos humanos, na formação avançada, formação ao nível das bolsas de doutoramento e emprego científico. Essa é estrategicamente a política. Vamos reforçar essa componente com fundos nacionais e comunitários. As outras rubricas foram mantidas mas como em 2016, como foi o fecho do QREN [Quadro de Referência Estratégico Nacional], tinham sido feitos uma série de pagamentos que estavam em atraso, parece que é uma diminuição. Mas nós mantemos o nível. Toda a ciência trabalha em programas plurianuais: um programa de investigação é quatro ou cinco anos. Os nossos compromissos novos serão todos em recursos humanos mas cumprimos os compromissos assumidos nas instituições.
E em relação à cooperação científica internacional?
Na cooperação científica também. Os contratos são todos de cinco ou 10 anos. Neste momento posso dizer o que vou pagar ao CERN [Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear] na próxima década, porque estão todos estipulados. Mantemos os contratos, não vai haver contratos novos, e pomos toda a parte nova em recursos humanos.
À beira da reunião ministerial da ESA [Agência Espacial Europeia], em dezembro, os investimentos vão manter-se, tendo nós uma indústria aeroespacial agora com maior capacidade de participação nos projetos e nos concursos?
Boa pergunta. Estamos a negociar com a ESA mas vamos anunciar na cimeira ministerial um aumento considerável do reforço da nossa participação. Porquê? Não é só por o espaço ser algo engraçado. A ciência e a tecnologia do espaço evoluíram radicalmente e vão evoluir muito nas próximas décadas. Aqui há uns anos, lançar um satélite custaria eventualmente cinco milhões de euros. Hoje é possível lançar satélites mais pequenos, com a mesma capacidade, [gastando] à volta de 150 a 200 mil euros. As chamadas novas indústrias do espaço não substituem as grandes, as antigas irão continuar. Iremos continuar a ter o Ariane, os grandes satélites. Mas é possível hoje pequenos países como Portugal acederem à democratização do acesso ao espaço e, com isso, desenvolver pequenas empresas de base científica e tecnológica, sobretudo na área da observação da Terra. O projeto que estamos a tentar lançar na Plataforma Atlântica, tendo como base os Açores, também tem uma componente importante de desenvolvimento empresarial nessa área. E, por isso, parece-nos que 15 anos após a participação na ESA, deveríamos reforçar agora.
E o reforço será de...?
Estamos a trabalhar com as empresas para a evolução para um novo modelo. Até aqui, tudo era a FCT, com algumas contribuições da Economia para o pagamento da ESA. Criaram-se novas empresas. E a Fundação para a Ciência e Tecnologia está a falar com todas as empresas no sentido de evoluirmos com outros processos de corresponsabilização do pagamento da quota. Para aumentarmos a quota, uma vez que o retorno é sobretudo económico, também temos que ter uma maior participação do setor económico na quota.
O retorno é de dois para um...
Sensivelmente. Nós pagamos cerca de 15 milhões de euros por ano e o retorno económico é sensivelmente de 30 milhões para as empresas. Por isso é que o processo do Atlântico e dos Açores é tão importante, porque estimula o desenvolvimento científico, a cooperação e a centralidade de Portugal no mundo, mas também o desenvolvimento económico, sobretudo em áreas emergentes, como as tecnologias espaciais.
Pensando na vertente Atlântica, e depois das eleições nos Estados Unidos, em que pé é que estamos?
Temos que confiar. Estamos a reforçar uma parceria muito forte com o Sul - O Brasil de um lado, África do Sul, a Nigéria, Angola, Marrocos e, no quadro europeu, certamente o Atlântico Norte: a Noruega, o Reino Unido, a Suécia....
Não referiu os Estados Unidos. Havia diálogo com a atual administração...
Com a atual administração, sim. Mas a democracia é isto mesmo e iremos continuar o nosso esforço. Obviamente os Estados Unidos influenciam qualquer projeto feito no Atlântico e portanto será certamente dependente [destes] e iremos trabalhar nesse sentido. Mas o projeto irá avançar.»

(reprodução de entrevista DIÁRIO DE NOTÍCIAS online, de 11 de novembro de 2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

"Devia haver uma avaliação rigorosa das capacidades dos politécnicos em produzir ciência"

Todos os Nomes 

(título de mensagem, datada de domingo, 6 de novembro de 2016, disponível em O Campus e a Cidade)

domingo, 13 de novembro de 2016

"Universidades devem usar ´folga` no orçamento para contratar doutorados"

«“O Orçamento do Ensino Superior cresce 70 milhões de euros em 2017. Como efetivamente a massa salarial diminuiu até 2015, há naturalmente uma folga [para contratações]”, assume Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em entrevista ao “Diário de Notícias”

A folga orçamental que algumas das universidades portuguesas vão ter neste ano letivo deve ser utilizada para contratar doutorados, defende Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, em entrevista ao “Diário de Notícias” esta sexta-feira.
Porém, trata-se de uma folga que não saiu do nada, mas sim da crise que muitas dessas instituições sofreram durante alguns dos últimos anos. A massa salarial diminuiu devido à “saída de pessoas”: situações de “emigração forçada”, abandono, admite o ministro.
“O Orçamento do Ensino Superior cresce 70 milhões de euros. Há um aumento efetivo. É verdade, concretizámos o compromisso da reposição, e estamos a aumentar efetivamente o orçamento. (…) como efetivamente a massa salarial diminuiu até 2015, há naturalmente uma folga. Mesmo em 2016, a massa salarial, pelo menos no primeiro semestre, diminuiu e tem vindo a diminuir desde 2011”, disse.
Só entre 2011 e 2015, “saíram mais de mil docentes do ensino superior”. Ou seja, se a massa salarial se tivesse mantido, “era verdade” que não haveria margem de manobra para contratações. Mas como a massa salarial diminuiu desde 2011 até ao primeiro semestre de 2016, “há uma folga”. ”E tanto há que há instituições, a Universidade de Lisboa entre outras, que já estão a abrir concursos”, disse, frisando ainda que mantém a ambição de que sejam contratados 2000 doutorados até 2019 para o ensino superior público.»

(reprodução de notícia EXPRESSO online, de  11.11.2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]