segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Universidades ´encolhem os ombros perante a praxe`"

«O sociólogo de Coimbra Elísio Estanque, que lança esta semana um livro sobre a praxe, afirmou à agência Lusa que as instituições do ensino superior ainda assumem uma atitude passiva perante o fenómeno.

"Parece haver uma espécie de encolher de ombros" perante a praxe, quando as universidades poderiam ter "um papel pedagógico muito mais proativo", sublinhou Elísio Estanque, autor do livro "Praxe e Tradições Académicas", editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e que é apresentado na quarta-feira, em Coimbra.
Apesar de uma mudança de atitude em relação à praxe por parte do atual Governo, "parece ainda haver alguma resistência" por parte das instituições do ensino superior, notou, defendendo que estas deveriam "investir muito mais em modalidades de acolhimento e receção dos novos alunos".
Para o sociólogo, a proibição ou a expulsão da praxe dos espaços da universidade não são solução para acabar com episódios de maior violência, visto que os comportamentos acabam por se perpetuar, "mesmo fora do espaço público", podendo "assumir contornos eventualmente ainda mais obscuros".
No livro, Elísio Estanque enumera os episódios de violência que foram mediatizados num passado recente, analisa o contexto histórico da praxe e os rituais contemporâneos, aborda a juventude de hoje, a "perversidade do poder" e a violência simbólica presente neste fenómeno.
O livro acaba por ser "uma reflexão" em torno da praxe e do que esta prática hoje diz "sobre a juventude portuguesa e a sociedade portuguesa", sublinhou.
Ao analisar o fenómeno, o sociólogo da Universidade de Coimbra constatou que, ao "contrário de algumas ideias feitas acerca do individualismo", a praxe acaba por mostrar "que os jovens dão importância ao grupo e de que a vida não tem muito sentido sem o coletivo".
Os jovens chegam às universidades e a integração pela praxe permite "aceder a um coletivo com uma certa identidade, com uma certa coesão, que confere um sentido de segurança e de identificação que é vital para um jovem".
Nesse contexto, a "dinâmica de grupo marca a postura de cada um", assumindo-se uma certa excitação, em que "a racionalidade individual tende a esbater-se em favor da dinâmica coletiva", explanou.
Na praxe, o 'doutor' que praxa é, ao mesmo tempo, "um camarada, um protetor", mas também a pessoa autoritária que o pode humilhar ou obrigar a participar em jogos "macabros no seu aparato".
"Funciona a lógica da cenoura e do chicote junto dos jovens recém-chegados", referiu Elísio Estanque.
De acordo com o sociólogo, a maioria das situações que ocorrem na praxe "são inócuas, mas simbolicamente preocupantes".
"Há uma naturalização da disciplina e do autoritarismo arbitrário", realçou, considerando que, no imaginário dos estudantes, está instalada como certa a ideia de que "a sujeição ao poder é algo absolutamente necessário para se ter algum sucesso na vida".
Essa ideia acaba por mostrar que "há um grande défice de consciencialização sociopolítica por parte da maioria da juventude, ao olhar com indiferença sobre práticas que alegoricamente evocam situações terríveis".
"Acho que o fenómeno, pelas proporções que tem assumido e pelos extremismos e incidentes, merecia uma atenção maior por parte das instâncias de governação das universidades, o que não tem acontecido até agora", concluiu.
A apresentação do livro decorre no café Santa Cruz, em Coimbra, na quarta-feira, às 17:00.»

(reprodução de notícia NOTÍCIAS AO MINUTO, de 17 de outubro de 2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

"Todos os estudantes vão ter desconto de 25% nos passes"

«A partir do próximo ano lectivo, todos os jovens até 23 anos que frequentem o ensino superior vão ter direito a reduções. OE também prevê alargamento do passe Social + a todo o território.

Os descontos nos passes dos estudantes, até aqui limitados a situações de carência económica, vão ser alargados a todos os jovens até aos 23 anos que frequentem o ensino superior. A medida consta no relatório que acompanha o Orçamento do Estado (OE) para o próximo ano e, ao que o PÚBLICO apurou junto de fontes governamentais, a redução será de 25% e irá efectivar-se a partir do próximo ano lectivo, ou seja, em Setembro.
No documento entregue na sexta-feira na Assembleia da República, o Governo refere que ao nível da política tarifária de transportes será “estendido o apoio a todos os estudantes de ensino superior com menos de 23 anos, promovendo o acesso universal, sem condição de recurso, ao primeiro escalão do apoio tarifário Sub23”. A reposição destes descontos, que tinham sido retirados pelo executivo de Pedro Passos Coelho, significará um encargo de cerca de 1,5 milhões de euros em 2017, já que incidirá apenas sobre quatro meses do próximo ano, de acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO.
A decisão agradará aos partidos de esquerda que dão apoio parlamentar ao Governo PS. O PCP foi muito crítico da suspensão destes descontos, logo em 2012, e tanto o Partido Ecologista “Os Verdes” (PEV), como o Bloco de Esquerda fizeram propostas este ano no sentido de recuperar a medida. No dia em que o OE foi entregue, o tema não estava completamente fechado, nomeadamente no que diz respeito à dimensão do desconto, uma vez que se estima que o encargo para o Estado possa chegar aos dez milhões de euros por ano. Tudo dependerá do número de estudantes que aderirem a estes passes.
Actualmente, só os jovens que beneficiem de acção social no ensino superior (ou que integrem famílias cujo rendimento mensal equivalente seja igual ou inferior a 1,2 vezes o valor do IAS) podem aceder ao tarifário Sub23. Para os primeiros, o desconto é de 60% e, para os segundos, é de 25%. O alargamento que agora se propõe, e que deixa de abranger apenas as situações de carência económica, contraria as declarações feitas pelo Governo no início do ano. Em Março, o ministro do Ambiente afirmava que seria “impossível, nos tempos mais próximos” repor os descontos para todos estes estudantes, pelo custo que acarretaria para os cofres públicos. “Objectivamente, não temos capacidade orçamental para o fazer”, explicou na altura Matos Fernandes.
No relatório que acompanha o OE, o Governo também se compromete a “consolidar a extensão do apoio Social + a todo o território”, mantendo os descontos introduzidos no início de 2016, depois de, no passado, estes terem ficado limitados às famílias de rendimentos reduzidos nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Neste campo, a previsão é que a medida tenha um custo de cerca de sete milhões de euros por ano, mas há partidos que querem ir mais longe. O PEV, por exemplo, pretende assegurar na discussão na especialidade que estes apoios também deixem de ser atribuídos apenas aos agregados com maiores constrangimentos financeiros. 
O sector dos transportes vai receber com aplausos estas medidas, já que sempre contestou as decisões tomadas pelo anterior executivo PSD/CDS, que foram justificadas com a necessidade de contenção da despesa pública. Ainda no início deste ano, a Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros (Antrop) reclamava a reposição dos descontos a todos os estudantes do ensino superior, argumentando que, com o fim das reduções em 2012, houve quebras de 70% na aquisição dos passes.
Ainda no sector dos transportes, o OE reserva cerca de 7,5 milhões para ajudar a resolver os problemas que têm vindo a ser registados nos transportes públicos, destinando-se à reparação de frontas e ao sistema de bilhética

(reprodução de notícia PÚBLICO online, de 16/10/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

domingo, 16 de outubro de 2016

"Universidades vão voltar a contratar"

«Fica também autorizada a contratação a termo de docentes e investigadores para a “execução de programas, projetos e prestações de serviço"

As instituições de ensino superior públicas vão poder proceder a contratações, “independentemente do tipo de vínculo jurídico que venha a estabelecer-se”, avança a versão preliminar do Orçamento do Estado para 2017.
Contudo, estas novas contratações não vão poder implicar “um aumento do valor total das remunerações dos trabalhadores docentes e não docentes e investigadores da instituição”. Ou seja, em caso de saída ou reforma destes trabalhadores das universidades públicas, as universidades vão poder gerir o seu orçamento com gastos de pessoal para contratarem mais professores e investigadores para o seu corpo docente.
Fica também autorizada a contratação a termo de docentes e investigadores para a “execução de programas, projetos e prestações de serviço no âmbito das missões e atribuições” das universidades, mas desde que estes gastos sejam feitos exclusivamente ao abrigo das “receitas transferidas da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia], receitas próprias ou receitas de fundos europeus relativos a esses programas, projetos e prestações de serviço”.
Além disso, em situações excecionais e de interesse público, os membros do Governo pelas áreas das finanças e do ensino superior podem aprovar a contratação de trabalhadores docentes e não docentes e investidores. Sendo que, nestes casos, “as instituições de ensino superior devem, preferencialmente, recorrer à utilização de receitas próprias”.
Estas medidas não serão, contudo, extensíveis a instituições de ensino militar e policial.»

(reprodução de notícia EXPRESSO online, de 14.10.2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

sábado, 15 de outubro de 2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Ensino Superior: o desafio de integrar os novos estudantes"

«As Universidades tornaram-se instituições centrais nas nossas sociedades contemporâneas e isso trouxe-lhes uma visibilidade acrescida do espaço público. Um dos motivos que deu enorme relevância ao Ensino Superior foi a convicção crescente de que a formação superior trazia inúmeros benefícios em termos relativos. Obviamente que uma parte importante desses benefícios se refere a aspectos económicos (mais rendimento ao longo da vida, menor risco de desemprego, empregos com mais oportunidades de formação adicional). No entanto, hoje sabemos também que uma população mais escolarizada beneficia também de múltiplos benefícios não-económicos (melhor saúde, maior capacidade de participação cívica e política, maior reconhecimento social, entre outras).
Por estes motivos, a obtenção de formação superior tornou-se hoje, felizmente, um dos objetivos de vida de cada vez mais jovens, assim como de todos aqueles que percebem a importância da formação ao longo da vida. As Instituições de Ensino Superior têm, por isso, a responsabilidade de se prepararem e responderem adequadamente a estas grandes expectativas de uma sociedade para quem o conhecimento tem cada vez mais valor económico e social.
É neste contexto que ganha acrescida importância a necessidade das Universidades promoverem uma bem-sucedida integração dos novos estudantes. Todos aqueles que viveram essa experiência sabem que é um tempo de entusiasmo e expectativa, mas também de incerteza acrescida, perante um novo mundo de escolhas intelectuais, profissionais e pessoais, presentes e futuras. Sabemos que, para a maioria dos estudantes, os primeiros tempos na Universidade são decisivos para um bom desempenho académico e para um percurso bem-sucedido. É, por isso, essencial que as Instituições de Ensino Superior saibam contribuir da melhor forma para essa integração, retirando cada vez mais o espaço a práticas pouco dignificantes e promovendo uma oferta diversificada de actividades culturais, desportivas e cívicas essenciais para a formação do estudante enquanto cidadão e futuro profissional.
Promover a integração dos novos estudantes passa também por (re)valorizar a missão de ensino, primeira missão da Universidade, alimentada por uma forte actividade de investigação de qualidade. Deste modo, as Instituições de Ensino Superior devem apoiar a formação pedagógica e científica dos docentes, fortalecendo o processo educativo numa perspectiva de inclusão dos estudantes. Tal faz-se também pelo reforço da exigência, com evolução contínua, da qualidade dos modos de ensino, aprendizagem e avaliação, que expandam a aquisição de conhecimentos, que incluam o desenvolvimento de competências diversificadas, que abram horizontes profissionais e científicos numa perspetiva global, e que fortaleçam a capacidade de compromisso com a comunidade envolvente.
Perante este desafio, a Universidade do Porto tem, de há alguns anos para cá, desenvolvido trabalho continuado para a integração dos estudantes na componente académica e social da instituição. Destaca-se, pelo valor simbólico, um dia festivo de acolhimento aos novos estudantes pela Universidade e pela cidade do Porto, complementada por um conjunto diversificado de actividades nas diferentes faculdades ao longo do primeiro ano. Estas actividades incluem informação sobre o curso e respectivas saídas profissionais, formações que promovem competências transversais, programas de tutoria/mentoria para apoio aos novos estudantes, assim como eventos culturais e actividades desportivas. Os estudantes são igualmente desafiados ao longo do seu percurso para projectos de intervenção na comunidade (tais como programas de voluntariado), projectos tecnológicos e de investigação em cooperação com centros de investigação, empresas e outras entidades, para além de programas de mobilidade internacional. Paralelamente, a U.Porto estabeleceu, à semelhança de outras Universidades nacionais e internacionais, uma actividade de formação pedagógica regular e diversificada dos seus docentes, promovendo a discussão e reflexão sobre a necessária adaptação dos métodos de ensino e de avaliação num tempo de rápida mudança.
A sociedade portuguesa espera hoje, mais do que nunca, que as Instituições de Ensino Superior sejam capazes de contribuir decisivamente para ultrapassar dificuldades conjuncturais e bloqueios ancestrais. Esperam, de modo particular, que saibam formar indivíduos bem preparados cientificamente, mas também comprometidos com a comunidade e empenhados na promoção de uma sociedade melhor. O percurso que a U.Porto está a trilhar não será único no contexto do Ensino Superior Português, mas esperamos que possa contribuir para animar outras a dedicarem mais atenção a uma integração bem-sucedida dos novos estudantes. Se o fizermos, estaremos a merecer a confiança que a sociedade deposita em nós.»

Fernando Remião 
Pedro Nuno Teixeira

(reprodução de artigo de opinião publicado em PÚBLICO online, de 13/10/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Novas regras para propinas cortam 200 milhões. Universidades em risco"

«O reitor da Universidade de Coimbra defendeu hoje que mudar as regras de pagamento das propinas pode significar um corte orçamental até 200 milhões de euros, o que impediria a sobrevivência das instituições.

Os deputados da comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura receberam hoje reitores de várias instituições para ouvir as suas posições sobre as propostas do PS, PCP e Bloco de Esquerda, que baixaram à comissão, sobre pagamento de propinas.
O reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, resumiu a posição dos vários representantes das universidades: Se as propostas avançarem "não há a mínima hipótese de (as instituições) continuarem a funcionar".
Em declarações à Lusa, o reitor da Universidade de Coimbra lembrou que as instituições de ensino superior recebem anualmente entre 250 a 300 milhões de euros mas com as propostas agora apresentadas "metade dos alunos deixaria de pagar propinas".
Segundo as contas de João Gabriel Silva, as instituições poderiam perder entre 150 a 200 milhões de euros, "numa visão bastante otimista", uma vez que o fim das penalizações por incumprimento de pagamento levaria muitos estudantes a deixar de pagar.
Em causa estão as propostas do Bloco de Esquerda que defende um mecanismo extraordinário de regularização de dívidas por não pagamento de propinas, a do PS que propõe o pagamento faseado das propinas e do PCP que determina como única consequência pelo incumprimento do pagamento o não reconhecimento do ato académico.
"Não retirem 150 a 200 milhões dos orçamentos das universidades porque elas não têm forma de sobreviver", pediu o reitor de Coimbra aos deputados parlamentares, sublinhando que as propostas em cima da mesa "vão causar consequências brutais".
Segundo os representantes das universidades hoje presentes no parlamento, os casos de alunos com sucesso académico que decidem abandonar os estudos por razões financeiras são residuais e nunca têm a ver com o pagamento de propinas.
A principal razão para o abandono é o insucesso escolar, garantiu João Gabriel.
Perante as declarações dos reitores, Luis Monteiro, do Bloco de Esquerda, questionou: "Eu faço a pergunta ao contrário: Quantos alunos não se candidatam ou nem sequer se inscrevem porque sabem que as propinas valem em média mil euros e que as bolsas de ação social não chegam a tempo para pagar essas propinas?"
Luis Monteiro lembrou a diminuição de candidatos ao ensino superior registada nos últimos anos, que associou a dificuldades financeiras das famílias.
O reitor de Coimbra defende que este problema tem de ser resolvido com um reforço da ação social escolar e não com o pagamento ou suspensão de propinas.
João Gabriel Silva sugeriu a criação de novos escalões de bolsas, de forma a conseguir apoiar mais alunos.
Além de João Gabriel Silva, esteve também presente Paulo Dias, reitor da Universidade Aberta, e Luis Reto, reitor do ISCTE.
Durante a comissão, foi ainda aprovado com os votos favoráveis do PSD e CDS/PP o requerimento do PSD para ouvir com urgência o Ministro da Educação, que deverá estar no parlamento ainda antes do debate do Orçamento do Estado.»

(reprodução de notícia NOTÍCIAS AO MINUTO , de 13 de outubro de 2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"Governo quer mais alunos a frequentar o ensino superior"

«Número de alunos no superior não é aceitável, frisou secretária de Estado

A secretária de Estado do Ensino Superior, Maria Fernanda Rollo, defendeu nesta segunda-feira que é preciso aumentar o número de alunos que segue para o ensino superior em Portugal.
"Temos todos que trabalhar muito nisto. Precisamos de mobilizar-nos, todos nós, nesta campanha de que estudar mais é preciso", afirmou.
Falando na Universidade da Beira Interior (UBI), Covilhã, durante a sessão solene de abertura do ano académico, a governante lembrou que apenas um em cada três jovens com idade para o efeito está a frequentar o ensino superior, número que não considerou aceitável.
"Este é um número que no mínimo nos deve preocupar a todos", afirmou, sublinhando que "não é possível encarar tranquilamente o futuro" tendo como referência "níveis ainda tão frágeis de formação".
Maria Fernanda Rollo considerou que alterar esta realidade passa por um "trabalho conjunto", mas sublinhou que é fundamental seguir esse caminho de modo a contribuir para a afirmação do país no contexto internacional, bem como na construção de um país mais justo e desenvolvido.
"Temos bem consciência de que essa formação é necessária em termos de realização pessoal e para construirmos um país com mais justiça, mais equidade e mais bem-estar para todos nós", referiu.»

(reprodução de notícia Público online,  de 10/10/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

"Parceria entre universidades portuguesas e o MIT quer chegar a mais áreas e ter mais financiamento"

«O MIT Portugal vai propor continuar após 2017 e um alargamento a outras áreas e setores, como a indústria. Diretor diz que é preciso reforço do financiamento.

O MIT Portugal, parceria entre universidades portuguesas e uma norte-americana, vai propor a sua continuidade após 2017, o alargamento a outras áreas e setores, como a indústria, e o reforço do financiamento, anunciou hoje o seu diretor.
“Os planos para os próximos anos passarão, numa primeira fase, por propor ao Governo, à FCT [Fundação para a Ciência e Tecnologia] e ao CRUP [Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas], os nossos ‘stakeholders’, juntamente com o MIT [universidade norte-americana], a continuidade do programa, que termina em 2017”, avançou hoje à agência Lusa Pedro Arezes.
O diretor nacional do MIT Portugal falava a propósito dos 10 anos do programa e defendeu ser “este o caminho mais coerente e necessário a um programa que acumulou um saber-fazer a que é importante dar continuidade”.
O programa, que já teve duas fases de cinco anos cada uma, abrange quatro áreas agora a ser repensadas, para analisar a possibilidade de alargar a novos domínios e de restringir alguns dos atuais.
Trata-se de um processo “mais ou menos longo de identificação de oportunidades e que tem em consideração a evolução da tecnologia mais recente, assim como das áreas da engenharia, e tentar ver com o MIT quais as que têm potencial”, explicou Pedro Arezes.
Quanto ao financiamento pretendido, “neste momento, deveremos ter alguma ambição adicional e esperar que haja um reforço do orçamento relativamente à segunda fase do programa”.
“Obviamente, esta ambição não é só do ponto de vista financeiro, mas também devemos ser mais ambiciosos em termos de atividades e tentar chegar a áreas e a determinados setores, eventualmente estender esta interação à indústria, que não tinhamos contactado nas fases anteriores”, continuou o responsável.
Nos primeiros cinco anos, o MIT Portugal teve um financiamento de 65 milhões de euros, valor que na segunda fase, até 2017, “passou para menos de um terço, para 20 milhões”, o que levou à alteração de alguns dos planos previstos. “Mas, depois de acertado o programa de acordo com essa redução, o seu desenvolvimento foi relativamente estável”, referiu Pedro Arezes.
O diretor fez um balanço “claramente positivo” da década, lembrando que o resultado do investimento em ciência e investigação “não se vê no imediato”.
Mais de três mil alunos candidataram-se aos programas doutorais e de mestrado e cerca de mil registaram-se nas universidades parceiras, sob alçada do MIT Portugal.
“Os nossos programas continuam a ser atrativos e o número de candidatos cresceu, não só os nacionais, que conhecem cada vez mais o programa, mas também temos uma percentagem de candidatos internacionais muito razoável, que rondam quase os 50%”, segundo Pedro Arezes.
Foram cerca de 85 as ‘startups’ criadas à volta do programa que, no entanto, não está orientado para esta atividade, e destas mais de 20 foram iniciativa de alunos e professores.
O MIT Portugal é uma parceria entre cinco universidades portuguesas — Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Coimbra, Universidade do Porto e Universidade do Minho –, empresas e o Massachusetts Institute of Technology (MIT).»


(reprodução de notícia OBSERVADOR online, de 9/10/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

sábado, 8 de outubro de 2016

"Da fraqueza se fez força"

«Na UBI não acreditamos que a solução do Interior passe pelo encerramento de instituições no Litoral. Acreditamos que temos todas as condições para sermos uma universidade do mundo.

A Universidade da Beira Interior é aqui o caso em que da fraqueza se fez força. O aparecimento este ano na lista das mil melhores universidades da Times Higher Education (THE), mais concretamente entre as 600 e as 800, ao lado da secular Universidade de Salamanca, é um feito para uma pequena universidade que tem apenas 30 anos e se encontra no Interior de Portugal. A UBI junta-se com o ISCTE às seis universidades portuguesas que já antes constavam da lista da THE, todas elas situadas no Litoral, melhorando com isso o posicionamento do nosso ensino superior à escala mundial. Como foi possível?
Situada na Covilhã, a UBI é a universidade mais improvável de Portugal. Não está na capital de um círculo eleitoral à Assembleia da República, não tem distritais políticas por si, não tem tribunais de relação, nem indústrias de peso, não tem um bispo, nem catedral, nem sé, e não tem a sede de uma CCDR milionária. É a universidade mais subfinanciada no sistema de ensino superior português (25% abaixo do padrão) e é a que está mais longe de um aeroporto e das companhias low cost, tão importantes para a mobilidade internacional dos estudantes. Ainda hoje gabinetes governamentais e para-governamentais se enganam na sua identificação, denominação e localização, chamando-lhe, por exemplo, universidade da Covilhã, ou então julgando-a em Castelo Branco ou na Guarda.
Como é possível então que a UBI apareça num ranking tão prestigiado como o da Times Higher Education? Porque ao longo destes 30 anos tem sabido crescer em tamanho, ciência e sabedoria.
Das novas universidades foi a mais lenta no seu crescimento. Enquanto as outras cresceram rapidamente com a integração das Escolas do Magistério Primário e das Escolas de Enfermagem, presentes em todas as capitais de distrito, e apostaram fortemente na então necessária formação de professores para os ensinos básico e secundário, a UBI não teve nenhuma dessas escolas a adubá-la no seu crescimento. Hoje com a formação de professores praticamente congelada, a UBI não sofreu a correspondente diminuição de alunos. E beneficiou, é claro, da criação da Faculdade de Ciências da Saúde, nomeadamente do curso de Medicina no início deste século.
A UBI cresceu também em tamanho, recuperando, com verbas comunitárias, as antigas fábricas têxteis, entretanto já ruínas industriais, convertendo-as em faculdades. À excepção da Faculdade de Ciências da Saúde, as outras quatro faculdades, Artes e Letras, Sociais e Humanas, Ciências, Engenharia, encontram-se em antigas fábricas. Foi a recuperação extraordinária de um património urbano, eventualmente caso único no país. A matriz laboriosa da Covilhã, Cidade Neve, mantém-se no dia-a-dia da universidade. De manhã, quando nos levantamos, não são os teares que nos esperam, mas as salas de aula, as bibliotecas e os laboratórios.
Cresceu em ciência, apostando nas áreas canónicas do ensino universitário. Continua a prezar os departamentos universitários clássicos, como os de matemática, física e química, porque são um núcleo duro indispensável à formação sólida de um engenheiro ou de um profissional da saúde. Não cedeu à moda dos cursos híbridos, em que, respondendo aos ares dos tempos e aos facilitismos das múltiplas estações, criaria engenharias sem matemática e física, ou outros cursos estilo ramos de flores, sem tronco ou raízes. A UBI sempre cultivou a sustentável gravidade da ciência. Das instituições de ensino superior mais recentes a UBI é a que tem mais produção científica indexada (ISI, Scopus).
Mas teve sobretudo a capacidade de crescer com sabedoria. As novas universidades criadas em 1973 por Veiga Simão, Minho, Aveiro, Nova de Lisboa, Évora, em muito beneficiaram da vinda dos professores universitários de Angola e Moçambique, retornados a Portugal a seguir às respectivas independências. A UBI, criada 12 anos depois, já não teve essa oportunidade. Mas, quando se deu a queda do Muro de Berlim, e consequente crise económica nos países do Leste Europeu, a UBI soube ir buscar dezenas de excelentes cientistas à Polónia e à Rússia. Vieram matemáticos, físicos, professores de engenharia civil, mecânica e aeronáutica que colocaram a universidade num patamar científico superior.
E a UBI sempre soube inovar. Foi a primeira universidade a criar um curso de Engenharia Aeronáutica, um curso de Cinema, e a primeira a juntar na Faculdade de Artes e Letras o estudo, a investigação e o ensino das humanidades e dos meios digitais. Tem o jornal online mais antigo das instituições de ensino superior (o Urbi et Orbi, desde Janeiro de 2000), e a biblioteca online mais antiga (bocc.ubi.pt, 1999). E, sobretudo, soube inovar no ensino da Medicina, apostando num modelo arrojado, centrado no aluno e na resolução de problemas.
Mas verdadeiramente a inclusão da UBI na lista da Times Higher Education é o reconhecimento de uma instituição cujo ser vai muito além do parecer. Não conheço ninguém que tenha visitado a UBI e não tenha ficado visivelmente surpreendido. Desde logo pelas instalações, pela Biblioteca, digna de uma Ivy League, pelos laboratórios, equipados e com vida, pela Reitoria instalada num convento do século XVI com uma vista magnífica, pelos espaços comuns de restauração, lazer e desporto. E depois, o mais importante, pelo ambiente de estudo, pela seriedade da vida académica e sobriedade de gestão. Estou convencido de que, pegando na lista da THE e ordenando-a apenas por custo de aluno, a UBI ficaria nos lugares de topo. A UBI em 2015 recebeu do OE 3356 euros por aluno inscrito contra 3700 das universidades do Porto e de Lisboa. Em Espanha não há universidade com menos de 6000 euros por aluno.
Obviamente que a UBI enfrenta o risco da progressiva e inevitável falta de alunos. É um problema já candente nas instituições de ensino no Interior do país, mas sê-lo-á também, num futuro não longínquo, para as universidades do Litoral. É que das mil turmas que encerraram este ano no ensino básico e secundário já foram poucas as do Interior, porque no Interior já são poucas as existentes. Na UBI não acreditamos que a solução do Interior de Portugal passe pelo encerramento de instituições no Litoral. Acreditamos sim que temos todas as condições para sermos uma universidade do mundo, e em particular do mundo dos 260 milhões de falantes do português, no Brasil, em Angola, Moçambique e outros PALOP. Estamos a caminho dos mil estudantes estrangeiros e a intenção é termos sempre uma captação de alunos internacionais superior à perda demográfica nacional.»


  António Fidalgo
  Reitor da Universidade da Beira Interior

 (reprodução de artigo de opinião PÚBLICO online, de  07/10/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]