segunda-feira, 11 de julho de 2016

"Ensino superior e doutoramentos"

«Seria progresso o ensino politécnico passar a conceder doutoramentos ainda que mesmo sob a argumentação confusa da diferenciação entre doutoramentos universitários e doutoramentos politécnicos?

“A história é émula do tempo, repositório de factos, testemunho do passado, exemplo do presente, advertência do futuro” (Miguel Cervantes).
Durante anos, porfiei na procura da letra de uma lengalenga da minha meninice que se me negava na neblina da memória. Já desesperançado, finalmente, deparei-me com ela numa crónica de António José Saraiva, “um dos espíritos mais fascinantes da cultura portuguesa contemporânea” (José Mattoso),intitulada “A lógica do macaco”: “Do meu rabo fiz navalha / Da navalha fiz camisa / Da camisa fiz farinha / Da farinha fiz menina / Da menina fiz viola / Trim tim tim que vou para Angola” (“Jornal de Letras”, 06/07/1982).
Mutatis mutandi, encontro analogia entre esta lengalenga de metamorfoses e o percurso feito pelo ensino superior politécnico que de um diploma de curta duração (dois anos) fez um bacharelato; de um bacharelato fez uma licenciatura; de uma licenciatura fez um mestrado; e de um mestrado pretendia fazer um doutoramento.
Aliás, nihil novi sub sole! Anos atrás, foi defendida por Rui Antunes, presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, a proposta: “A cidade de Coimbra só teria a ganhar se o Instituto Politécnico de Coimbra continuasse a fazer o mesmo que tem feito até aqui com o nome de Universidade Nova de Coimbra” (Diário de Coimbra, 10/11/2005). Quem sabe se por ter dado pelo plágio relativamente ao nome da Universidade Nova de Lisboa, volta ele à carga propondo, agora, lato sensu, a crisma de ensino politécnico para “Universidade de Ciências Aplicadas” (Diário As Beiras, 05/08/2013).
Em oposição, e com o apoio do movimento associativo estudantil, António Cunha, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), discorda com o fim do sistema binário de ensino superior: “Temos sempre defendido o aprofundamento do sistema binário e uma maior diferenciação entre os sistemas” (PÚBLICO, 08/07/2015).
No ano em curso, sai reforçada esta posição reitoral com a notícia intitulada: “Universidades estão contra doutoramentos em politécnicos” (PÚBLICO, 17/06/2016). Dela relevo as seguintes passagens:
“Os reitores das universidades públicas não querem que os politécnicos passem a atribuir doutoramentos. A medida está a ser estudada pelo Governo e corresponde a uma a uma ambição antiga dos institutos superiores. Em comunicado, os responsáveis universitários defendem que essa solução vai criar uma maior confusão entre as missões dos dois subsectores e será prejudicial para o ensino superior”.
 Em relação à semana anterior, era, também, aí referido que “o Governo está a estudar esta possibilidade e tem-na discutido com os responsáveis das instituições de ensino superior. O que está em cima da mesa não é a atribuição de doutoramentos académicos, o modelo clássico, que se mantém como um exclusivo do sector universitário”.
 Em tentativa de quem procura saída para o beco em que se tinha metido, era esclarecido pelo Governo “ que os politécnicos correspondem à fileira profissional dentro do ensino superior e, portanto, devem poder dar cursos de doutoramento com uma componente profissional ou tecnológica”.
Ao arrepio do “soberaníssimo bom senso”, de que nos falava Antero, a tutela da 5 de Outubro abre portas com a habilidade de as fechar quando as dobradiças começam a ceder. Assim, passados escassos dias, sai neste mesmo jornal uma outra notícia, desta feita, intitulada “Politécnicos não vão formar doutorados” (22/06/2016), esclarecendo que [em audição parlamentar], “o ministro da Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor, afirma que não pretende permitir que os institutos politécnicos passem a oferecer doutoramentos”, reforçando ser necessário “aumentar as diferenciações entre as instituições de cada um do subsistemas”. Ou seja, descalçando botas que lhe pudessem vir a criar joanetes justificava-se o ministro com ”toda a sua abertura ao debate”.
Pelo poeta polaco Stanislaw Lec, foi levantada a seguinte interrogação: “Será progresso um canibal usar garfo e faca?” Analogamente, seria progresso o ensino politécnico passar a conceder doutoramentos ainda que mesmo sob a argumentação confusa da diferenciação entre doutoramentos universitários e doutoramentos politécnicos, numa espécie de classificação de doutoramentos de primeira e doutoramentos de segunda?
Num país em que, não poucas vezes, se protege o atrevimento, se enaltece a ignorância e se honra o demérito não seria ocasião soberana para se definirem, de uma vez por todas, sem ser a reboque de pressões sindicais, políticas ou de qualquer outra natureza, as linhas orientadoras do sistema oficial de ensino superior? Me arreceio que, em procrastinação, tão ao jeito dos poderes decisórios nacionais, se deixe, uma vez mais, a solução definitiva desta magna questão para as calendas gregas, em desacerto com o preconizado por Victor Hugo: “Saber exactamente qual a parte do futuro que pode ser introduzido no presente é o segredo de um bom governo”.»

RUI J. BAPTISTA 

(reprodução de artigo de opinião Público online, de 11/07/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

"43 novas licenciaturas aprovadas e 36 chumbos"

«Agência avaliou este ano 79 propostas de licenciaturas: cursos ligados ao mar, gestão especializada e terapêuticas não convencionais são novas tendências.

As licenciaturas na área do mar, das terapêuticas não convencionais e da gestão sobressaem da lista dos 43 novos cursos aprovados pela Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) para o próximo ano letivo. Sobressaem porque estão em maior número e, no caso da gestão, apresenta-se em versões especializadas: da restauração ao turismo, à linguística para negócios internacionais. Chumbaram 54% das candidaturas.
As 36 candidaturas reprovadas revelaram, por seu lado, insuficiente classificação do corpo docente ou ausência dos laboratórios indispensáveis, segundo explica ao JN Alberto Amaral, presidente da A3ES.»

(reprodução de notícia JORNAL DE NOTÍCIAS online, de 11 de julho de 2016) 

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

domingo, 10 de julho de 2016

"The ‘war on humanities’"

Artigo Times New Roman
Why are the humanities always under fire? We need them more than ever:
https://www.timeshighereducation.com/blog/why-are-humanities-always-under-fire-we-need-them-more-ever

sábado, 9 de julho de 2016

"Ministro do Ensino Superior expressa ´repúdio total` pelas praxes"

«Manuel Heitor pede um "combate cerrado"a estas práticas académicas.

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, expressou nesta sexta-feira, em Braga, o seu "repúdio total" pelas praxes académicas, "qualquer que seja a sua forma", e apelou a um "combate cerrado" àquelas práticas de recepção ao caloiro.
"É uma das maiores pragas que temos de combater", referiu Manuel Heitor, que falava na Universidade do Minho, na abertura de um seminário sobreOrganização e desenvolvimento do ensino superior.
O governante manifestou o seu apoio "a todos aqueles que se têm batido contra a prática de praxes académicas e outras práticas boçais e grosseiras que hoje continuam a ocorrer no contexto do ensino superior em Portugal".
Há dias, 100 personalidades subscreveram uma carta aberta, intituladaIntegração no Ensino Superior: a democracia faz-se de alternativas e dirigida a todas as instituições de ensino superior, em que pedem alternativas à praxe.
Vincando o "repúdio total pelas praxes académicas, qualquer que seja a sua forma", Manuel Heitor adiantou que vai escrever a todos os responsáveis pelas instituições de ensino superior a pedir "um combate cerrado" àquelas práticas.
Para o ministro, terá de haver uma "co-responsabilização" das instituições, "não só dentro das instalações mas de uma forma geral", por se tratar de "um processo social complexo, que tem de ser percebido e combatido diariamente todos os anos".
" [As praxes] devem ser combatidas por todos, estudantes, professores e, muito especialmente, por todos os responsáveis por instituições politécnicas e universitárias, independentemente do local da ocorrência", defendeu.
Sublinhou que o sistema de reporte de praxes está acessível na Direcção-Geral do Ensino Superior e que todos os processos serão enviados para o Ministério Público. "Porque hoje temos de considerar isso como um crime", acrescentou.
Já o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, António Cunha, defendeu que as universidades "têm de ser espaços de liberdade" e instituições "comprometidas com os valores humanistas". "Ninguém pode ser obrigado a fazer o que não quer fazer", afirmou António Cunha, também reitor da Universidade do Minho.
Para Cunha, as universidades "têm de reagir a comportamentos e práticas que perturbem as demais actividades e que sejam atentatórios da dignidade humana e dos valores humanistas".»

(reprodução de notícia PÚBLICO online, de 08/07/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

"O reitor até concordou em não se fazerem mais elefantes brancos [...]. Esqueceu-se no entanto que noutras áreas continua a promovê-los"

A festa têxtil e os elefantes brancos 

(título de mensagem, datada de sábado, 9 de julho de 2016, disponível em O Campus e a Cidade)

Nota: nem todos são brancos; nalguns casos são prateados e esverdeados.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

"Estudantes que subiram muro que caiu e matou 3 colegas vão a julgamento"

«O Tribunal de Braga decidiu hoje que no caso da queda de um muro que matou três estudantes da Universidade do Minho, naquela cidade, apenas vão a julgamento os colegas das vítimas que foram para cima da estrutura.

A juíza de instrução decidiu não pronunciar um fiscal e um engenheiro da Câmara de Braga e o responsável de uma empresa de condomínios, que também eram arguidos no processo.
Segundo a juíza, a "causa direta" do colapso do muro foi a "pressão exercida" pelos quatro estudantes que foram para cima dele, festejar a vitória numa "guerra de cursos".
Aludiu ao parecer de peritos que disseram que aquela é uma estrutura "que apenas aguenta o seu próprio peso".
"Aquilo não era uma estrutura para se saltar para cima, isso é evidente", sublinhou.
Em relação aos três arguidos não pronunciados, a juíza admitiu que, de alguma forma, beneficiaram do desaparecimento, na Câmara de Braga, do processo físico relativo àquele local.
Ficou, assim, por saber qual foi o teor completo da troca de correspondência entre a Câmara e o administrador do condomínio sobre a alegada falta de segurança do muro e que diligências foram feitas de parte a parte.
O advogado das famílias das vítimas, João Noronha de Carvalho, disse que o processo seria "esclarecedor" em relação ao que se passou, acrescentando que o desaparecimento é uma "coincidência inaceitável e incompreensível".
"As famílias não irão descansar enquanto não puser no banco dos réus a 
Câmara e o condomínio", afirmou, adiantando que será interposta uma ação cível contra ambos.
O caso remonta a 23 de abril de 2014, quando, num contexto de "guerra de cursos", quatro alunos treparam a uma estrutura composta por alvenaria de tijolo e betão, com cerca de um metro e meio de altura e quatro metros de comprimento, destinada a albergar recetáculos de correio, onde, segundo o MP, permaneceram a "cantar e a saltar".
O muro acabou por cair, matando três estudantes que estavam em baixo.
Dos quatro estudantes arguidos, acusados de homicídio por negligência, três requereram a abertura da instrução e foram hoje pronunciados.
Em relação ao outro, há um recurso pendente, sendo que após a decisão desse recurso poderá também requerer a abertura de instrução.»

(reprodução de notícia NOTÍCIAS AO MINUTO, de 8 de julho de 2016)
 
[cortesia de Nuno Soares da Silva]

"Ian McNay advises new researchers on how to get their work accepted by academic journals"

Artigo Times Higher Education
How to get your first research paper published: 
https://www.timeshighereducation.com/news/how-to-get-your-first-research-paper-published/2015485.article


quarta-feira, 6 de julho de 2016

"Bolseiros científicos salientam mérito da contratação mas querem integração na carreira"


«A Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) considera que a proposta legislativa de estímulo ao emprego científico, apesar de ter o mérito de prever a contratação de investigadores, peca por não contemplar a sua integração na carreira.
Num parecer, a ABIC refere que o projeto de diploma "é uma iniciativa legislativa de mérito", ao "constituir um primeiro passo de reconhecimento das necessidades dos trabalhadores científicos, mas também de todo o sistema" científico e tecnológico nacional, "que se encontra em estado de profunda desorganização e degradação". Contudo, "planear a contratação temporária de atuais bolseiros que não terão qualquer perspetiva laboral de médio ou longo prazo, nem serão integrados em carreira alguma", parece "mais uma solução paliativa do que uma verdadeira resolução do problema de base", critica a associação.»

(reprodução de notícia CORREIO DA MANHÃ online, de 06.07.2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]

terça-feira, 5 de julho de 2016

"Praxe: 100 personalidades pedem às universidades para criarem alternativas"

«“Em democracia, deve haver sempre lugar à escolha, mas só é possível escolher se houver opção, ou seja, alternativas consistentes”, defende carta aberta. Alguns subscritores explicam o que os move.

Músicos e actores, escritores e cineastas, advogados, jornalistas, juízes, deputados, professores universitários... São 100 os nomes que constam da lista de assinaturas de uma “Carta aberta a todas as instituições de ensino superior”, que o PÚBLICO divulga em primeira mão. O tema é a praxe. Ou melhor: as alternativas à praxe a que, segundo os subscritores, os estudantes devem ter acesso quando entram numa universidade ou politécnico.
“Instamos todas as equipas dirigentes das universidades, politécnicos, faculdades e escolas superiores a criar, com carácter duradouro, actividades de recepção e de integração dos novos estudantes e das novas estudantes, ao longo do ano lectivo, que configurem uma alternativa lúdica e formativa às iniciativas promovidas pelos grupos e organizações de praxe”, lê-se na missiva que tem como título Integração no Ensino Superior: a democracia faz-se de alternativas.
É assinada — entre muitos outros — por aquele que é considerado “o pai do Serviço Nacional de Saúde”, o ex-ministro António Arnaut, a rapper Capicua, a jornalista e presidente da Fundação José Saramago, Pilar del Rio, a apresentadora de televisão e presidente da Associação Corações com Coroa, Catarina Furtado, os cineastas João Salaviza, Margarida Gil, Raquel Freire, os escritores José Luís Peixoto, Miguel Sousa Tavares, Luísa Costa Gomes, Inês Pedrosa, os militares de Abril Vasco Lourenço e Pezarat Correia, o advogado Celso Cruzeiro, a atleta Melissa Antunes...
“Sendo certo que nenhum estudante é formal ou legalmente obrigado a frequentar as actividades de praxe, seja em que faculdade ou escola superior for, a pressão para aderir é muitas vezes muito forte e em si mesma uma violência, e a ausência de outros mecanismos integradores é um facto”, lê-se ainda. “Em democracia, deve haver sempre lugar à escolha, mas só é possível escolher se houver opção, ou seja, alternativas consistentes.”

A juíza que recusou ser praxada

A juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça, Clara Sottomayor, vive no Porto, onde costuma ver, com frequência, “estudantes na rua, de gatas, com penicos na cabeça, a proferir palavras humilhantes para eles próprios”. Diz que o que vê não só “não é pedagógico” como “não é um bom exemplo para a sociedade”. Por isso assinou a carta aberta.

Instamos todas as equipas dirigentes das universidades, politécnicos, faculdades e escolas superiores a criar, com carácter duradouro, actividades de recepção e de integração dos novos estudantes e das novas estudantes, ao longo do ano lectivo, que configurem uma alternativa lúdica e formativa às iniciativas promovidas pelos grupos e organizações de praxe.”



Carta Aberta


Já no seu tempo de estudante, quando em 1983 entrou na Católica do Porto, deparou-se com algumas práticas que considerou incómodas — nessa altura as manifestações praxísticas saíam menos à rua, aconteciam dentro das instituições. “Havia uma fila para uma espécie de tribunal onde os estudantes novos eram julgados e depois obrigados a fazer coisas humilhantes.”

Hoje, a juíza, que é também professora convidada da Católica, recorda que chegou “a ser obrigada a ir para a fila”, mas pediu ajuda a um amigo mais velho que andava na mesma universidade. “Foi-me buscar, tirou-me dali.” Não é verdade, diz, que seja sempre fácil dizer não. “É discutível a liberdade de consentimento nestes casos.” Como lembra a carta aberta, a pressão é grande, sobretudo para os estudantes que vêm de outras cidades, pela primeira vez estão longe da família e sem amigos por perto.
“Não me sujeitei à praxe e não deixei de fazer amigos por causa disso”, remata a juíza. É um mito que a praxe seja a única forma de integrar os novatos.

A deputada que foi para fora

A praxe como integração? “Só se for a integração da boçalidade e da perversão”, responde São José Lapa, actriz. Com 65 anos, não se lembra de no seu tempo, na Escola Superior de Teatro, haver praxe. Mas deixa uma sugestão: soube que um grupo de alunos se organizou recentemente para com os “caloiros” ajudarem a “reconstruir casas numa velha aldeia”. Sustenta que esta, sim, “é uma actividade integradora”. Mas “há tanta coisa mais que se pode fazer...”
Rubina Berardo, 33 anos, deputada madeirense do PSD, estudou no Reino Unido. “E lá não havia praxe, havia uma semana com várias actividades organizadas pela universidade e pelas associações académicas, que tinham uma vertente lúdica, festa, convívios, mas não só. Havia também uma feira de actividades, por exemplo, onde me inscrevi como voluntária numa linha de apoio psicológico para estudantes.”

Achei que fazia sentido reunir pessoas de diferentes quadrantes políticos e sociais, ir além da questão da violência física, que por vezes está associada à praxe, e que é a mais noticiada.”


Luís Monteiro


Nunca lhe agradou a ideia de ser praxada e confessa até que, quando teve que se decidir entre Portugal e outro país para estudar, o facto de haver praxe em Portugal contribuiu para que escolhesse outro país.

Ainda assim, a deputada não acha que se deva proibir a praxe. Gostava antes que houvesse “uma mudança gradual de mentalidades” e a carta aberta que decidiu subscrever, “uma iniciativa suprapartidária”, sublinha, pode constituir-se como mais um contributo.

“Ir além da questão da violência”

Outros deputados constam da lista de subscritores: Paula Teixeira da Cruz e Cristóvão Norte (PSD), Alexandre Quintanilha, Isabel Moreira e João Torres (PS), Teresa Caeiro e Ana Rita Bessa (CDS-PP), André Silva (PAN), Joana Mortágua e Zuraida Soares (BE, sendo esta última deputada da Assembleia Legislativa dos Açores). Mas a ideia partiu do deputado Luís Monteiro, 23 anos, do BE.
“Achei que fazia sentido reunir pessoas de diferentes quadrantes políticos e sociais, ir além da questão da violência física, que por vezes está associada à praxe, e que é a mais noticiada”, conta o deputado.
No mês em que se iniciam as candidaturas às universidades e politécnicos do país, a ideia da carta aberta “contou logo com o apoio de grande parte dos deputados” que contactou. E, à medida que foi falando com pessoas fora do universo da política, mais se lhe juntaram, com mais contributos. Em cerca de três semanas chegou aos 100 nomes.

A praxe, tal como existe no que tem de pior, é um sinal de que as marcas de cerveja ganharam à cultura, que era a marca forte da população estudantil."Jacinto Lucas PiresLuís Monteiro espera que a carta consiga sensibilizar todas as instituições para que até ao início do próximo ano lectivo consigam “organizar outras formas de recepção e de integração” dos alunos. É que para muitos dos seus colegas, de outras cidades, que conheceu nos seus primeiros dias de estudante da Universidade do Porto, “a praxe foi mesmo a única forma que lhes foi apresentada”.

Ele recusou ser praxado, o que fez com que demorasse mais algum tempo a conhecer os seus colegas. “Quando chegava pelas 8h30 da manhã, eles já estavam em praxe desde as 7h30.” Não foi complicado, estava na sua cidade, tinha amigos, sentia-se acompanhado, lembra. Os novos amigos acabaram por surgir na mesma.

Nem alegria, nem irreverência

O escritor Jacinto Lucas Pires, 41 anos, chegou à universidade no início da década de 90. Um professor dava uma aula, e no fim não era um professor mas um aluno mais velho. Os caloiros eram chamados ao palco, mas quem não queria não ia — em suma, a sua praxe nada teve de traumatizante. Por isso, a razão pela qual assina a carta aberta é esta: “A praxe, tal como existe no que tem de pior, é um sinal de que as marcas de cerveja ganharam à cultura, que era a marca forte” da população estudantil.
Mais: a praxe das “procissões humilhantes no Rossio, dos estudantes de gatas” não tem “nem alegria, nem originalidade, nem irreverência”. O escritor não defende que se acabe com a ideia de praxe, o que queria era que as universidades recebessem as pessoas “fazendo-as sentir em casa, com alegria”. E por isso assinou a carta.
Ana Zanatti, que recentemente lançou um livro, O Sexo Inútil, onde a personagem principal lhe relata uma praxe “muito marcante, a que foi submetida à entrada da universidade”, sublinha outro ponto a que se refere esta carta aberta: a importância de haver canais para os alunos se queixarem se forem alvo de abusos.

Em muitos casos a praxe envolve processos de intimidação, de diminuição dosjovens da sua capacidade como adultos, e tem havido casos extremos.”


Alexandre Quintanilha


No seu tempo (finais de 1960), Zanatti não se lembra de haver praxe na Universidade de Lisboa. O arqueólogo Luís Raposo (entrou em 73/74) também não, “mas havia antipraxistas”, recorda o presidente do Conselho Internacional dos Museus, que não olhava com bons olhos para os costumes da comunidade estudantil de Coimbra. “Quase que parecia mal, em Lisboa, aderir à praxe, andar com aqueles sobretudos, todo o folclore, o próprio conceito de caloiro não existia. Estávamos todos no mesmo barco, todos na mesma agitação.”

“Um grito de alerta”

Só que nos últimos anos, diz o arqueólogo, algo mudou. “Tem havido um retrocesso nos costumes que me inquieta. As indumentárias, a praxe, os rituais, a hierarquia, por todo o lado, muito visível. O que aconteceu à nossa sociedade para que se sinta tanta falta destes rituais?” Para não falar “das humilhações, dos abusos”. E remata: “Assinar esta carta, para mim, é um grito de alerta e ao mesmo tempo de revolta contra as humilhações.”
Rui Unas, actor, humorista, produtor, resume assim o seu apoio à missiva: “Assinei por uma questão de justiça”, as pessoas “devem poder escolher”. Alexandre Quintanilha, deputado do PS, segue a mesma linha. Admite que “haja uma cerimónia para os novos alunos”, o problema é outro: “Em muitos casos a praxe envolve processos de intimidação, de diminuição dos jovens da sua capacidade como adultos, e tem havido casos extremos.” Aliás, lembra, “já houve pessoas que morreram”.
Manuel Loff, historiador, entrou na Universidade do Minho como estudante nos anos 1980, quando o ensino superior se começou a massificar e, explica, a praxe começou a “ser reabilitada” pela mão das organizações juvenis situadas mais à direita. “Recusei participar aos 17, aos 18, aos 19.”
Do Minho passou para o Porto, onde foi presidente da associação de estudantes da sua faculdade. “Éramos uma lista da esquerda plural e não nos assumíamos contra a praxe, porque na lista havia divisões entre nós: eu era clarissimamente contra, mais muitos dos meus colegas não eram, e o que dizíamos era que não tínhamos que colaborar minimamente, nem gastar dinheiro, com aquilo que não era uma actividade consensual entre os estudantes.”

Não me sujeitei à praxe e não deixei de fazer amigos por causa disso.”Clara Sottomayor


Nos anos 90, “a praxe ganhou uma grande popularidade”, continua. “Uma percentagem muito significativa dos jovens portugueses chegam ao ensino superior, e os seus pais têm um enorme orgulho, como compreendemos. A praxe, o traje académico, a pasta são símbolos dessa entrada.” Mas esta praxe que entra pelo século XXI adentro não é nova. “Vem acompanhada do que sempre teve, historicamente — da humilhação de natureza sexual, de um misto da hierarquia e disciplina militar.”

Hoje, o professor universitário lamenta ver “uma total falta de coragem na abordagem deste tema da parte de alguns reitores e directores e administradores das instituições de ensino superior”. Também espera que a carta aberta seja mais um contributo para o debate.»

(reprodução de notícia Público online, de 05/07/2016)

[cortesia de Nuno Soares da Silva]